Saiba um pouco sobre Stoner Rock
Que diabos é o tal Stoner Rock? O ano era 1970. Na contra-mão da cultura “paz e amor” da geração flower power, surge uma banda falando sobre bruxas, demônios, drogas, e toda uma sorte de sentimentos humanos não muito bonitos. Com afinações baixíssimas, notas de guitarra dissonantes em acordes menores e variações de andamentos nas músicas, alternando entre o vigor galopante do bom e velho rock n’ roll e ritmos muito lentos (ninguém fazia isso na época), emerge das profundezas o monolito conhecido como Black Sabbath. Marco zero do Heavy Metal. Ponto final. Todo o resto já foi dito. As sementes do chamado Stoner Rock foram lançada à terra. Mas elas não germinaram sozinhas. Também compõe a gênese do estilo em questão o poderoso hard rock produzido nos 70’s, representado pelos pesos-pesados Deep Purple, Uriah Heep, Grand Funk Railroad, entre outros. Acontece que, no início dos anos 90, uma molecada americana completamente aloprada resolve dar uma atualizada na receita dos dinossauros setentões. Plugando guitarras em amplificadores de baixo, fazendo jams extensas e viajantes e criando grooves pesados e musculosos, surge o monstro chamado Kyuss. Seu segundo disco, o aclamado Blues from the Red Sun (1992), ditou a fórmula do insipiente Stoner Rock: peso viajante, chapação, instrumentações longas, riffs à la Tony Iommi (Black Sabbath), alternâncias de andamentos e, principalmente, muita honestidade e nenhuma preocupação com as paradas de sucessos. Josh Homme (guitarras) era o capitão desse time, e tinha apenas 16 anos na época. Pois bem, Black Sabbath, marco zero. Kyuss, marco um. Outra banda fundamental para a consolidação do estilo nos EUA é o Corrosion of Conformity (ou C.O.C.). Formada em meados dos 80’s, a banda começou fazendo um hardcore tradicional, mas a partir de 1992 reinventou-se com o clássico Deliverance (ouça Albatross). Junto ao Kyuss, o C.O.C. disseminou a fórmula stoner, ocasionando o aparecimento de inúmeras bandas underground que engrossaram o caldo do movimento. O nome stoner é um trocadilho com a palavra stoned (“chapado”). A mistura de peso e distorção com instrumentações longas e viajadas atingiu em cheio os apreciadores do rock pesado dos 70’s e das viagens alucinógenas do psicodelismo dos 60’s. Novamente os espectros dessas duas décadas mágicas da música se fizeram presentes, mas agora aliados a um peso mais denso e encorpado, herança do Heavy Metal propriamente dito e da sujeira sonora do fenômeno grunge (era Sub Pop, gravadora antológica do movimento). Mas não se deixe enganar, a intenção do Stoner Rock é, em sua grande maioria, exalar o astral 60 e 70, através de sonoridade low-fi, instrumentos vintage e muita experimentação cerebral. São várias as vertentes percebidas neste movimento. Mesmo tendo o Black Sabbath como espinha dorsal (isso é inegável), muitas bandas centram-se em andamentos mais retos e acelerados, herdados de bandas como Blue Cheer e Motorhead (exemplos: Fu Manchu, Dozer, Daredevil, entre outros). Outras esforçam-se (e conseguem) em enganar o ouvinte, fazendo-o jurar que está ouvindo uma gravação dos anos 70. Nestes se incluem algumas das minhas bandas prediletas, como o Black Bonzo e o italiano Wicked Minds (é possível soar como o Uriah Heep hoje em dia!) e o desbundante Siena Root (no disco de 2006, Kaleidoscope, se encontra a melhor música do ano passado, na minha opinião. Ouça Nighstalker e depois me diga!. Timbres de gravação incrivelmente setentista e vocal feminino poderoso e marcante. Os grupos Burning Saviours e Witchcraft seguem a mesma linha de sonoridade vintage, não dando nenhuma pista de que suas gravações foram feitas nesta década. Bandas stoner existem hoje em todo o mundo, inclusive no Brasil (vide Sonic Volt, Flaming Moe, Yellow Plane, entre outras). Mas, convenhamos, ninguém bate a produção sueca, pois é intrínseco nas bandas desse país o groove, o peso, a melodia, a timbragem dos instrumentos e a veia setentista de se fazer rock. Não é à toa que alguns dos patronos do movimento são de lá. Vem dessas terras o colosso chamado Spiritual Beggars. Liderada pelo guitarrista Mike Amott (ex-Carcass), essa banda vem desde meados dos anos 90 explodindo as mentes de apreciadores de rock pesado. Em tempos de música descartável e ídolos efêmeros, esses caras me fazem suar frio cada vez que abro a embalagem de um cd ou que conheço alguma novidade deles. E eu agradeço imensamente por isso! Mas não é por menos, os Beggars têm tudo: peso e melodias grandiosas na medida exata, uma cozinha matadora, criadora de grooves poderosos, o bom e velho astral setentista, um esmero com a sonoridade dos instrumentos, e o melhor vocal masculino do mundo do peso atualmente, na minha opinião. Seu nome: JB, uma garganta de aço descomunal ou, como costumo chamá-lo, o “David Coverdale do Inferno”. Pra completar, esse viking ensandecido ainda é vocal, guitarra e líder do Grand Magus, outra besta-fera sueca, que prima por andamentos mais lentos e pesados, com muita influência do Doom Metal, mas com muita melodia e climas apoteóticos e grandiosos, elementos caracteristicamente suecos. Os EUA também têm sua respeitável produção stoner. Uma vertente tipicamente americana é a que mescla os elementos do stoner rock com o southern rock de bandas como The Allman Brothers e Lynnyrd Skynnyrd. Seus principais representantes são o Alabama Thunderpussy (maravilha de banda, muito peso mesclado com o típico groove do rock sulista americano), a garotada do Black Stone Cherry (com uma pegada mais metal, misturando riffs certeiros e uma cozinha azeitada), o Beaten Back to Pure (groove, peso e vocais guturais) e o Down, mega-banda formada por Phil Anselmo (ex-Pantera, Super Joint Ritual) nos vocais, Pepper Kennan na guitarra, oriundo do já citado Corrosion of Conformity. Completam o time músicos de bandas como Crowbar e Eyehategod, outras usinas de produzir peso e distorção. Isso é apenas uma pincelada nesse universo vasto e rico, onde a cada dia surgem mais bandas, cada uma incorporando elementos mais inovadores ou simplesmente reproduzindo fielmente a mágica das décadas anteriores. Um excelente site para pesquisas e descobertas a respeito é www.stonerrock.com, que contém links para os sites oficiais das bandas. Outra pedida é o www.hellridemusic.com, que contém entrevistas e lançamentos, e serve para se manter bem atualizado. Mas, como a cena stoner é predominantemente underground (pelo menos por aqui), o acesso à música das bandas é difícil, e o custo dos cds importados é muito elevado. Raramente uma banda é lançada pelas nossas gravadoras. A saída, então, é o inevitável mp3. Então termino esse texto dando umas dicas de algumas bandas que considero vitais para minha satisfação musical atualmente. Se por acaso se deparar com alguma delas, dê um jeito de conhecer de alguma forma. Depois, me conta como foi a experiência sonora... e mental. Abraço. Cristian Pundonor Lista “Cotonete de Veludo” Stoner: - Spiritual Beggars (Suécia) - Grand Magus (Suécia) - Siena Root (Suécia) - Abramis Brama (Suécia) - Big Elf (EUA) - Alabama Thunderpussy (EUA) - Sir Hedgehog (Canadá) - The Quill (Suécia) - Firebird (Inglaterra) … e por aí vai...


Um comentário:
Curti.
Foi por ai mesmo... essas foram as bandas mais influentes mesmo. Eu acrescentaria o Beaever nesta lista, mas é uma banda pouco conhecida.
http://img375.imageshack.us/img375/5607/familyab.jpg
Nos países sul-americanos também há uma cena Stoner bem forte, ao ponto de terem bandas de Stoner que influenciam outras bandas (no Brasil isso já não ocorre) assim existem bandas de balde (a maioria de grande qualidade como o Maligno). Pena que temos pouco contato cultural com nossos hermanos.
Hoje em dia, com a "putaria atual de estilos" Influencias de Stoner podem ser bem sentidos nas bandas de Sludge, Doom, Rock psicodélico e ainda em outros muito inusitados como Groove-metal ou mesmo metalcore.
Muito bom, abração!
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